Atômica - Crítica




            Adaptações de historias em quadrinho para filmes em tela grande, são a nova aposta dos estúdios cinematográficos em atrair um publico sedento por novidade, é nessa batida que a Universal Pictures do Brasil trouxe Atômica (Atomic Blonde) baseada na graphic novel “The Coldest City do escritor Antony Johnston e Sam Hart, ela nos apresenta umas das raras oportunidades de ver uma mulher interpretando um papel de agente de espionagem violento e grotesco e sensual características essas que costumeiramente são entregues a homens na indústria, mas Charlize Theron tem o necessário para segurar o filme sozinha, e sozinha ela o faz.

            A trama segue a premissa básica que o material original tem Lorraine Broughton (Theron) uma agente do MI6, é enviada em uma missão especial a Berlim Oriental, poucos dias antes da queda do muro, com o objetivo de recuperar a lista de agentes duplos britânicos em atividade nessa região, colocada em risco com o assassinato do agente que a portava, antes que ela caia nas mãos inimigas, ou seja, ser vendida como mercadoria valiosa no mercado negro, o interesse é perceber que ela esta em um local onde todo e qualquer um pode ter trocado de lado e agora ser seu inimigo.

            O que vemos aqui é um hibrido muito bem realizado da historia em quadrinho original em que o filme é baseado e o surpreendente sucesso de John Wick nos cinemas, se levarmos em conta que o diretor aqui David Leitch co-dirigiu ao lado de Chad Stahelski a primeira aventura de Wick, temos certeza do fato, em muitos aspectos essa adaptação se mantem bastante fiel, mesmo que a sua estética seja completamente diferente, enquanto que de um lado no material original temos o preto e branco obviamente representado a inglória Guerra Fria, no filme a fotografia opta pelo uso constante de luzes neon, que conversam muito bem com o tom de cada cena, esses contrastes dividem o espaço com a forte presença de tons azulados mais frios, esses sim, naturalmente nos remetendo ao cenário politico da época que esta sendo retratada, assim sendo o filme se permite criar um estilo próprio, nesses utilização de cores quentes e frias ao mesmo tempo que segue a proposta de arte criado por Hart no original.


            Leitch se destaca com nota máxima ao demonstrar alguns truques do seu arsenal de cenas de ação, pois foi duble de filmes por muito tempo, ele nos entrega sequencias que verdadeiramente se destacam com louvor no cenário cinematográfico atual, a intenção do diretor é clara e ele não se preocupa com isso, fugindo dos planos curtos e câmera tremida, somos conduzidos por ele em uma montanha russa de tensão, nos fascinando ao passo em que o cuidado demonstrado garante a beleza de tais cenas, mesmo assistindo o ponto de grafismo que é apresentada, assim sendo sentimos cada impacto de cada um dos golpes, tornando tudo mais crível, atingindo seu climax no emblemático plano sequencia do final, que na opinião deste que vos escreve é algo beirando a perfeição.


           O filme não é perfeito o roteirista Kurt Johnstad (300, 2006 e 2014) não consegue desenvolver a sua narrativa sem cometer os erros dos quadrinhos, ao escolher dispensar maiores didatismos nos diálogos e já nos jogar de cabeça nessa trama de espionagem, o grande problema é que conforme vemos a historia se desenrolar a confusão inicial somente aumenta, e o faz de tal forma que ficamos apenas na expectativa de mais e mais cenas de ação, para assim nos distanciarmos da complexidade, transforma o enredo bastante simples em uma formula física sem resultado final, quase que como uma forma preguiçosa de nos explicar o que esta acontecendo o filme nos leva de volta através de constantes “flashbacks” durante as cenas de interrogatório de Broughton que acaba passando o filme todo, o problema criado por ele é que ao invés de deixar a narrativa fluida, ele acaba complicando e fragmentando a narrativa de tal forma que acaba por prejudicar de certa forma o excelente trabalho do diretor e de sua protagonista.


            Com um elenco de apoio excelente, mas a dona do jogo aqui é Charlize Theron que já havia provado mais de uma vez estar apta para filmes de ação, nos mantem atenta a sua obra, através do seu olha penetrante podemos perceber exatamente o que se passa na mente da personagem, dispensando a necessidade de diálogos, ainda que esses estejam muito presentes na obra até com certo excesso, ela se apropria da personagem de tal forma que a sua linguagem corporal e caracterização se torna um ícone cinematográfico, que não fica devendo em nada para nenhum James Bond da vida, fazendo jus ao material original, mas muito mais importante é a forma brilhante que ela se encaixa nesse cenário, em nenhum momento deixando duvida de que a historia se passa na nos anos oitenta.


            Atômica é um filme visualmente impactante, com uma caracterização espetacular de Charlize Theron que é de fato a dona do filme, capaz de tudo que se passa em tela, o único problema é que chegamos no destino, mas o caminho para chegar nele não é tão agradável quanto deveria tornando o desenvolvimento narrativo bastante engasgado e difícil de engolir, apresentando um ritmo bastante episódico que diretamente afeta nossa imersão na produção, mas não tira a excelente diversão que é assistir as cenas de ação inventivas e bem boladas do diretor, fazendo de Loraine uma nova ídola do cinema de ação violenta, que John Wick se cuide temos uma loira em ação e pronta para chutar bundas.


Comentários