Mel Gibson é um ator reconhecido pelo seu trabalho em cena, mas como diretor ainda ter certas desconfianças, que a imprensa não perdoa, erros do ator ao falar coisas que não deveria, mas como diretor ele tem se mostrado talentosa, sensível a cena, a busca pela apresentação do espaço, e das ameaças que as norteiam, ele também conseguiu colocar uma assinatura a sua direção, ela sempre extremamente violenta, e sangrenta, o diretor não tem medo de ousar nas cenas mais fortes.
Até o Ultimo Homem começa com um plano de jovens soldados estraçalhados pelo horror da guerra, o choque e o impacto da cena incomoda aos olhos mais sensíveis, mas essa é a intenção do diretor, a fim de dar peso a narrativa que será vista nos minutos que seguem, a dor, a violência, o medo, e o terror são uma forma de justificar aquela história e mostrar sua importância, como se diante daquela situação aterrorizante, pudesse surgir uma espécie de luz no fim do túnel, como um milagre de Deus que salvasse aqueles jovens que não tiveram oportunidade de viver sua juventude e tira-los daquele caos.
O longa traz a história de Desmon Doss vivido por um excelente Andrew Garfield, um recruta do exército americano que se recusa a pegar em armas e visa ir à guerra para ajudar e salvar os homens no campo de batalha, um seguidor fervoroso da religião católica, o protagonista, vê a guerra como uma missão dada por Deus, e dessa forma, nenhum mandamento dele deve ser ferido e seguira assim lutando contra tudo e contra todos. Dividido em três atos muito claros ao espectador, o filme contempla a juventude do rapaz numa cidade da Virginia, o seu período na academia militar e finalmente o campo de batalha no Japão, mais precisamente em Okinawa, nome que dá origem ao título do filme. São nesses atos que Gibson se concentra, e distribui a construção de seu filme, mostrando o discurso do protagonista católico que não fere a fé divina e seus mandamentos, e chocando o público com a dor e o sofrimento sem pudor, a salvação sempre aliado a penação e o flagelo como o caminho para o milagre é a busca constante de diretor que também busca sua redenção interna.
Com o primeiro ato monótono, com tons de iluminação que beirão o exagero, frases de efeito para forçar uma emoção, que ainda não há, fazem a primeira parte beirar a pieguice. Mas o diretor se redime no segundo ato do filme, na academia do exército é onde o ponto de vista do protagonista entra em conflito com o mundo real, os ideais do protagonista são totalmente opostos as rígidas leis do exército, a lei dos homens em confronto com as leis divinas, nessa circunstância a ideia do flagelo defendido por Gibson se faz compreensível, aquela academia, aquele treinamento é uma provação para o protagonista para que ele possa finalmente cumprir sua missão. O diretor consegue trabalhar muito bem as dificuldades do protagonista em blindar sua mente por uma dádiva, e mesmo com as pancadas que recebe, por aquele sistema, ele segue com os seus ideais, com a sua missão, nesse ponto do filme é o momento em que tanto personagem quanto produção defendem melhor o seu pensamento.
O terceiro ato do filme é extremamente pesado para assistir, incomoda o espectador comum, impressiona pela intensidade com que o diretor constrói as cenas no campo de batalha, a representação da cordilheira de Okinawa é como se os bravos soldados americanos chegassem realmente ao inferno, basta prestar bem atenção ao notar que a primeira vez que os recrutas escalam o lugar eles são recebidos com uma chuva de sangue, no sentido literal, mas que funciona muito mais como metáfora de um lugar que representa o mal encarnado, sem humanidade alguma. Essa relação literal, vira dialogo no filme um general pergunta ao protagonista realmente sabe que você encontrará o diabo do outro lado, e o herói responde que sim. Na nova produção de Mel Gibson o humanismo, a dádiva e a iluminação do protagonista está apenas em um lado e servindo como mais uma arma de guerra.
Até o último homem está longe de ser um filme ante guerra, e não necessariamente é necessário ser um, todavia a grande questão é que a espiritualidade e essa missão divina do protagonista é colocada favorecendo apenas um lado do conflito, o discurso visual e textual do filme é que Deus protegerá aqueles homens porque estão do lado certo, sem ao menos perpassar por um pensamento complexo de que do outro lado também há o mesmo sofrimento, algo muito menos ideológico e muito mais humano.

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